martes, 6 de enero de 2009

Até o Fauno se perderia

Lendo o conto "El jardín de los senderos que se bifurcan" , do Borges (Ficciones), comecei a pensar em labirintos. Nos labirintos invisíveis do tempo e nos labirintos dos meus pensamentos.
Nestes últimos, só falsas saídas. Placas luminosas dizendo "por aqui", levando a lugar algum. Soluções em forma de comprimidos e cápsulas, todas inúteis.
Quando tudo o que eu precisava, na verdade, era de uma chave.

lunes, 29 de diciembre de 2008

Já que eu não tenho sono, eu tenho a madrugada e os meus livros. Assim eu me deixo e não falo comigo.
A grande questão são as micro-férias. Porque longe da correria eu parei de me arrastar e me deparei comigo, me olhei.
Começamos a conversar e não nos reconhecemos. Eu e eu. Duas estrangeiras num corpo.
Essa outra parte, sem parar de falar, sem parar de fazer tantas perguntas incômodas sem respostas. Tanta inquisição sutil.
É um espelho que se mostra sem que eu me olhe.
As coisas começam a ter outra cor.

viernes, 26 de diciembre de 2008

39º

Vamos lá, talvez a febre ajude.
Por onde começo?
Ah sim, sim:
"A burguesia fede!", já disse o mestre Cazuza e as pessoas continuam repetindo num eco anormal e sem um grão de criatividade.
Sim sim...
Pelo amor de Deus, já estamos cansados demais de ouvir em pseudos-poeminhas que a culpa toda é da burguesia e do Sistema (sim, com letra maiúscula porque ele já virou entidade).
Parem um pouco de repetir incansavelmente sem refletir...
Quem é o burguês? Quem é o tal Sistema?
Você já parou pra pensar que enquanto faz sonetinhos dizendo que a culpa é toda do cara riquinho, não está fazendo mais do que prolongar a interminavel divisão das castas? O que se faz com tanto protestinho de fundo de quintal infundado é repetir e repetir feito papagaio ensinado. É isso que o tal "Sistema" tanto quer, a divisão. Você, senhor engajado, é puro Sistema camuflado.
Cai na real, meu amigo, minha amiga inteligente: pregar contra quem tem só mostra o desejo nada oculto de ter também e assim se eleva ad infinitum (como se escreve isso?) o preconceito que já existe de sobra. E tô falando do preconceito não do possuidor e sim daquele que não possui.
Tanto protesto é dor de cotovelo e se não fosse, os "manifestantes" perceberiam que correm por dinheiro, que fazem hora extra por dinheiro, que fazem crediário nas Casas Bahia pra ter a tv que brilha na casa do burguês, pra ter "status". Já foi engolido pelos valores que tanto critica.
E nem nota que o tal "burguês" é mais ou tão escravo quanto o proletário, porque sofre com todo tipo de doença psico-somática e gasta rios de dinheiro lutando contra o stress, já que vive para trabalhar e manter o patrimônio inútil.
É, caro amigo "militante", sinto te informar que o Sistema traiu a todos, pobres e ricos, cada um ferrado de uma maneira.
E sua pseudo-militância não derruba o monstrinho-sistema, só gera mais ódio contra pessoas de classes diferentes.
Quer um conselho?
Comece a escrever sobre o que é universal pra todo ser humano e não sobre as diferenças. Mostrar onde se é igual gera união e não esse ódio que ninguém precisa mais.
Ah, o Cazuza foi um poeta sim, foi sábio em reconhecer a podridão do dinheiro mal usado, mas pelo amor de Deus, tragam algo novo aos saraus e reuniõezinhas culturais.

miércoles, 10 de diciembre de 2008

"Quem não tem o prazer de penetrar no mundo dos idosos não é digno da juventude." (Augusto Cury)
Sabe, com tanta dor a gente pensa em muitas coisas. Uma delas é que é muito importante valorizar a vida e as pessoas. Tá, parece algo de auto-ajuda e até pode ser, mas não era a intenção.
Eu não sei, mas nos últimos tempos eu tive contato com um tipo de amor tão puro e forte que acho que todos os seres humanos merecem sentir isso. O amor da doação, da dedicação, algo que não sei definir bem. O amor de cabelinhos brancos, enrugado, com um sorriso sincero de agradecimento no rosto.
Quando você tem um ser tão frágil e tão forte nas suas mãos, com o quádruplo da sua idade, o mundo pára e você fica parada naquela carinha que te conta sobre a vida e tudo o que foi. Você se esquece de si por um bom tempo e percebe o outro e começa a atribuir uma importância tão grande a ele que as pequenas coisas parecem ficar diferentes.
Se eu pudesse dar um conselho a qualquer um que quisesse conselhos, eu diria: visite sua avó, seu avô. Procure saber quem eles realmente são, quem foram, o que eles carregam em si. Muitas gente chega a pensar que não entendem nada de nada porque são velhinhos, mas a verdade, meu amigo, é que enquanto estamos indo eles já estão voltando.
Dá para aprender muito com esses seres especiais, vale a pena procurá-los para um café, um papo, um abraço.
Aproveitar o tempo em que eles ainda estão por aqui, porque depois... depois são só as fotografias.

sábado, 6 de diciembre de 2008

Nonna,

"Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu,
Por toda a minha vida."

(Vinícius de Morais/Tom Jobim)

Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar... o que ficou, é para sempre.
Obrigada é muito pouco.

sábado, 29 de noviembre de 2008

Quando as pessoas dizem "eu sinto muito", não, elas não sentem.

"Segue o teu destino,
rega tuas plantas,
ama as tuas rosas.
O resto é sombra de árvores alheias."
(Fernando Pessoa)

viernes, 21 de noviembre de 2008


lunes, 10 de noviembre de 2008

"Não refreie as lágrimas; chore tantas vezes quantas desejar, mas não lamente desesperadamente sua perda. Ao contrário, honre-a vivendo com maturidade. Honre-a enfrentando seus temores. Elogie-a sendo generosa, criativa, afetiva, sincera. Viva com sabedoria. [...] vá em frente! Não tenha medo do caminho, tenha medo de não caminhar!"
(O vendedor de sonhos, Augusto Cury)

domingo, 9 de noviembre de 2008

Consoada

Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

(Manuel Bandeira)

jueves, 6 de noviembre de 2008

Tentando fugir da massa, você vira massa...



viernes, 24 de octubre de 2008


Discretamente ela rastejou, se esgueirou e roubou das mãos alheias a sua própria vida. Agarrou com tanta, mas tanta força o "objeto" roubado, que este começou a penetrar por seus poros. Então correu.

Agora ela está foragida, esperando que a absorção se dê por completo.

E não, ela não pretende devolver.

jueves, 16 de octubre de 2008

Você me ama apesar de mim?

lunes, 6 de octubre de 2008

Os dias chovem e eu chovo todo dia

Fica mais um pouco comigo, por favor.
Só mais um pouco pra eu tentar corrigir os 24 anos da minha pura estupidez cavalar e grosserias.
Mais um pouquinho, pra eu continuar ouvindo as histórias da Segunda Guerra Mundial, de como a senhora pedalava uma bicicleta fugindo dos bombardeios com a minha mãe na barriga.
Mais um pouco pra me ensinar como é que se perdoa as pessoas, essa coisa tão difícil que a senhora conseguiu fazer tão bem, sempre.
Fica mais um tempo aqui, nesse mundo cão pra se indignar com os vândalos que pulam portões pra pichar nossa fachada. Pra contar como essa casa foi comprada.
Pra dar o aconchego do seu sorriso de cobertor nesses dias frios.

miércoles, 1 de octubre de 2008

Ouvir para aprender

"De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, da vida em conjunto e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: "No princípio era o verbo". Eu acrescento: "Antes do verbo, era o silêncio". É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim -para ouvir as vozes do silêncio.
Veja esse poema de Fernando Pessoa, dirigido a um poeta: "Cessa o teu canto!/ Cessa, que, enquanto/ O ouvi, ouvia/ Uma outra voz/ Com que vindo/ Nos interstícios/ Do brando encanto/ Com que o teu canto/ Vinha até nós.// Ouvi-te e ouvi-a/ No mesmo tempo/ E diferentes/ Juntas cantar./ E a melodia/ Que não havia./ Se agora a lembro,/ Faz-me chorar". A magia do poema não está nas palavras do poeta. Está nos interstícios silenciosos que há entre as suas palavras. É nesse silêncio que se ouve a melodia que não havia. Aí a magia acontece: a melodia me faz chorar.
Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa pára por não haver o que dizer, tratamos logo de falar qualquer coisa, para pôr um fim ao silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos para o chão? Nada temos a falar. Esse silêncio é como se fosse uma ofensa. Aí falamos sobre o tempo. Mas nós dois bem sabemos que se trata de uma farsa para encher o tempo até que o elevador pare.
Os orientais entendem melhor do que nós. Se não me engano, o nome do filme em que vi esta cena é "Aconteceu em Tóquio". Duas velhinhas se visitavam. Por horas ficavam juntas, sem dizer uma única palavra. Nada diziam porque no seu silêncio morava um mundo. Faziam silêncio não por não ter nada a dizer, mas porque o que tinham a dizer não cabia em palavras. A filosofia ocidental é obcecada pela questão do ser. A filosofia oriental, pela questão do vazio, do nada. É no vazio da jarra que se colocam flores.
O aprendizado do ouvir não se encontra em nossos currículos. A prática educativa tradicional se inicia com a palavra do professor. A menininha, Andréa, voltava do seu primeiro dia na creche. "Como é a professora?", sua mãe lhe perguntou. Ao que ela respondeu: "Ela grita...". Não bastava que a professora falasse. Ela gritava. Não me lembro de que minha primeira professora, dona Clotilde, tivesse jamais gritado. Mas me lembro dos gritos esganiçados que vinham da sala ao lado. Um único grito enche o espaço de medo. Na escola, a violência começa com estupros verbais.
Milan Kundera conta a estória de Tamina, uma garçonete: "Todo mundo gosta de Tamina. Porque ela sabe ouvir o que lhe contam. Mas será que ela ouve mesmo? Não sei... O que conta é que ela não interrompe a fala. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas falam. Uma fala e outra lhe corta a palavra -"É exatamente como eu, eu...'- e começa a falar de si, até que a primeira consiga, por sua vez, cortar -"É exatamente como eu, eu...". Essa frase parece ser uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo. É uma revolta brutal contra uma violência brutal: um esforço para libertar o nosso ouvido da escravidão e ocupar, à força, o ouvido do adversário. Pois toda a vida do homem entre os seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro."
(Rubem Alves)

lunes, 29 de septiembre de 2008

Grades, cadeados e chaves são seres meramente simbólicos. Elementos psicológicos que nos ajudam a não sucumbirmos ao medo.
Outra noite sonhei que as grades e portões de casa eram feitos de bambus, podres, facilmente quebráveis. Inúteis.
E descobrimos esta manhã que é o que na verdade eles são.
Criaturas vândalas (vulgo brasileiros) conseguiram transpôr as demarcações de território para fazer sua obra de arte.
Sim, é arte, porque é expressão pura dos seus "eus" e refletem toda a merda de que estão compostos.
Paciência. Quando tivermos dinheiro passamos uma tinta na parede e abafamos o caso.
Ou você acredita que votar dá certo?
Rá-rá

jueves, 25 de septiembre de 2008

Só pra dizer
que no seu aniversário
quem ganhou presente fui eu
você presente.

martes, 23 de septiembre de 2008

O toc toc toc seco do salto contra as pedras da calçada é música de fundo para o que os olhos vêm (quando pisa pequenas pedrinhas, o barulho de aconchego casa com o frio cortante).
Cidade gris, vidas passando sem se cruzar.
Observo na praça umas pombas desavisadas comendo algum alimento ofertado num trabalho de macumba. Ao fundo, um labrador corre solto como se estivesse no campo, enquanto taxistas esperam por mais um cliente enchendo a cara de café.
Penso que adivinho porque tantos bons escritores compunham inspirados em paisagens artificiais. Essas são as mais naturais, na verdade, para almas tão misantropas.

jueves, 18 de septiembre de 2008

Lento

Si quieres un poco de mí
me deberías esperar
y caminar a paso lento
muy lento

y poco a poco olvidar
el tiempo y su velocidad
frenar el ritmo, ir muy lento, más lento.

Ser delicado y esperar
dame tiempo para darte
todo lo que tengo.

Si quieres un poco de mí
dame paciencia y verás
será mejor que andar corriendo
levantar vuelo

y poco a poco olvidar
el tiempo y su velocidad
frenar el ritmo, ir muy lento
cada vez más lento.

Ser delicado y esperar
dame tiempo para darte
todo lo que tengo.

Si me hablas de amor
si suavizas mi vida
no estaré mas tiempo
sin saber que siento.

Ser delicado y esperar
dame tiempo para darte
todo lo que tengo.

lunes, 15 de septiembre de 2008

Obrigada pela carona, mas eu continuei com aquele nó na garganta que só desatou quando pude me sentar no chao e desabar.
Depois minha cabeça gira e os sentidos se confundem, torpor.
Obrigada pelo colo quente, mas o papo é comigo e só comigo mesma de uma vez por todas.
Ah, e escrevo de rosa só porque definitivamente odeio essa cor.

miércoles, 3 de septiembre de 2008

"você pode não acreditar nisto
mas há as pessoas
que passam pela vida com
muito pouca
fricção de angústia.

eles se vestem bem, dormem bem.
eles estão contentes com
a família deles.
com a vida.

eles são imperturbáveis
e freqüentemente se sentem
muito bem.
e quando eles morrem
é uma morte fácil, normalmente durante o
sono.

você pode não acreditar nisto
mas tais pessoas existem.
mas eu não sou nenhum deles.

oh não, eu não sou nenhum deles,
eu não estou nem mesmo próximo
para ser um deles.

mas eles
estão lá ...

e eu estou aqui."

(Bukowski)